Envelhecimento da população e concentração de renda ameaçam o equilíbrio da democracia

A falta de políticas públicas eficazes, sobretudo voltadas à redistribuição de renda e à garantia de cuidados de longa duração, amplia a vulnerabilidade das pessoas idosas

Fonte: Jornal GGN

Enquanto o mundo vive uma acelerada transição demográfica, marcada pelo envelhecimento da população, os sistemas econômicos e políticos parecem despreparados para enfrentar seus impactos mais profundos. O aumento da população idosa, aliado à crescente concentração de renda, está gerando um cenário de empobrecimento silencioso, que afeta tanto países desenvolvidos quanto economias emergentes.

Conforme artigo do professor de Pós-Graduação em Gerontologia, Universidade de São Paulo (USP), Jorge Felix, se fenômeno ocorre em meio a outras transições igualmente complexas — ambiental, digital e epidemiológica — compondo o que o sociólogo francês Edgar Morin chama de “policrise”. A falta de políticas públicas eficazes, sobretudo voltadas à redistribuição de renda e à garantia de cuidados de longa duração, amplia a vulnerabilidade das pessoas idosas e ameaça o equilíbrio das democracias modernas.

Em muitos países ricos, os governos seguem promovendo reformas que endurecem o acesso à aposentadoria, ao mesmo tempo em que cresce a pobreza entre os idosos. A França, por exemplo, discute o aumento da idade mínima para aposentadoria e, simultaneamente, investiga o avanço da pobreza na terceira idade.

Segundo a Inspection Générale des Affaires Sociales (IGAS), a pobreza já afeta significativamente pessoas acima dos 50 anos, que passam a viver em instituições de acolhimento precocemente. A situação é mais grave em residências sociais, onde 55% dos moradores estão em situação de vulnerabilidade.

Relatórios recentes da organização Petits Frères des Pauvres mostram que cerca de 2 milhões de franceses com 60 anos ou mais vivem com menos de 1.200 euros por mês — um valor abaixo da linha de pobreza estabelecida pelo Banco Mundial. O número é considerado alarmante para um país do G7.

Além da queda de renda, cresce o endividamento entre os idosos. De acordo com o Banco da França, o percentual de pessoas idosas endividadas dobrou em menos de uma década, passando de 6,8% em 2012 para 12% em 2020, com as mulheres sendo as mais afetadas.

A retirada de benefícios, como a indexação das aposentadorias à inflação a partir de 2026, pode agravar ainda mais o quadro. “Os aposentados estão sendo chamados a pagar a conta da instabilidade global”, diz o relatório do IGAS.

Nos Estados Unidos, o Nobel de Economia Angus Deaton e a pesquisadora Anne Case chamaram atenção para o fenômeno das “mortes por desespero”, ligado à queda na qualidade de vida da população idosa.

Esse cenário pode se agravar com a recente decisão de Donald Trump de romper com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o que obrigará países europeus a aumentarem seus gastos militares. Estima-se que os 800 bilhões de euros anunciados pela União Europeia para defesa serão retirados de áreas como saúde, educação e programas sociais — setores cruciais para a proteção da população idosa.

O Brasil, embora com uma estrutura demográfica distinta, não está imune. As tensões geopolíticas e o protecionismo impulsionado por Trump, em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, podem impactar investimentos e gerar instabilidade econômica, com efeitos indiretos sobre o bem-estar da população idosa brasileira.

A lógica da financeirização também transforma a poupança voltada para a aposentadoria em mecanismo de capitalização militar. Na França, um fundo de investimento foi criado para financiar o setor de defesa, tendo como público-alvo pessoas idosas e próximas da aposentadoria. O valor mínimo para aplicação é baixo (500 euros), o que facilita a adesão, mas levanta dúvidas sobre quem realmente se beneficia.

Na análise de Felix, os recursos tendem a ser canalizados para o mercado financeiro internacional, especialmente para os Estados Unidos. “Na geopolítica do envelhecimento, o ganhador já está definido”, conclui o artigo.