Entender os tipos de demência é essencial para evitar diagnósticos equivocados e oferecer o cuidado mais adequado ao paciente
Fonte: Portal Dr. Drauzio Varella
Apesar de frequentemente usados como sinônimos, demência e doença de Alzheimer não são a mesma coisa — e essa confusão pode atrasar diagnósticos, comprometer o tratamento e afetar diretamente a qualidade de vida dos pacientes. O equívoco é comum tanto na população geral quanto entre profissionais de saúde que não lidam diretamente com esse tipo de quadro.
“A demência é uma síndrome clínica, ou seja, um conjunto de doenças ou agravos à saúde que provocam o declínio das funções cognitivas. A memória é o principal aspecto afetado, mas também entram atenção, orientação no tempo e no espaço, julgamento, capacidade de planejamento e de administrar a própria vida”, explica Charlys Barbosa, geriatra e membro da Comissão de Inovação em Doença de Alzheimer e Demências da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).
Segundo o especialista, a demência pode ser comparada a outras síndromes clínicas. “Quando falamos em insuficiência cardíaca, por exemplo, estamos descrevendo uma condição que pode ter várias causas. Com a demência acontece o mesmo. Existem diversas doenças que podem levar a esse quadro, sendo a doença de Alzheimer a principal delas”, esclarece.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 55 milhões de pessoas convivem com algum tipo de demência no mundo, o que ajuda a explicar por que é comum a confusão entre os termos. O sintoma inicial mais característico é o déficit de memória, especialmente para informações recentes, além da dificuldade de resolver tarefas habituais e administrar a própria rotina.
“O Alzheimer, de forma geral, não se inicia com sintomas motores nem com alterações comportamentais intensas, como alucinações e delírios. Esses elementos são importantes para diferenciar o Alzheimer de outros tipos de demência”, afirma o médico.
No Brasil, além do Alzheimer, outras doenças merecem atenção, como a demência vascular, a demência por corpos de Lewy e a demência frontotemporal.
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A demência frontotemporal (DFT) é menos frequente, mas ganhou maior visibilidade após os diagnósticos públicos do ator Bruce Willis e do jornalista brasileiro Maurício Kubrusly.
Esse tipo de demência costuma surgir mais cedo do que outras condições, geralmente por volta dos 60 anos ou até antes, e se caracteriza por alterações comportamentais e de linguagem, que muitas vezes aparecem antes de uma perda de memória significativa.
“O paciente pode iniciar o quadro com sintomas comportamentais importantes, como agressividade, irritabilidade, desinibição social ou sexual. Em outros casos, há um comprometimento da linguagem, tanto na expressão quanto na compreensão”, detalha o dr. Charlys.
Essas mudanças impactam profundamente a vida familiar. De acordo com o geriatra, não é raro que esses comportamentos sejam interpretados como falhas de caráter ou problemas conjugais. “Já acompanhei casos em que o diagnóstico só veio após rupturas familiares importantes. Além disso, ainda não temos terapias específicas capazes de retardar a progressão da demência frontotemporal, o que torna o manejo mais desafiador.”
A demência por corpos de Lewy (DCL) também figura entre as principais causas de demência no Brasil, mas ainda é pouco reconhecida. A divulgação do diagnóstico do cantor Milton Nascimento ajudou a ampliar a visibilidade da condição.
Uma de suas principais características é a associação entre sintomas cognitivos e sintomas motores semelhantes aos da doença de Parkinson, conhecida como parkinsonismo. “Na demência por corpos de Lewy, o quadro demencial e os sintomas motores surgem juntos ou em um intervalo de até seis meses a um ano”, explica o geriatra.
Além disso, são comuns alucinações visuais, delírios, flutuações cognitivas, alterações importantes do sono (como o transtorno comportamental do sono REM) e maior risco de quedas.
“O tratamento é complexo porque esses pacientes costumam apresentar hipersensibilidade a medicamentos psicotrópicos. Doses muito baixas podem causar sedação excessiva ou reações paradoxais, como agitação”, alerta o dr. Charlys.
O diagnóstico também é desafiador porque, diferentemente de outras demências, os exames de neuroimagem estrutural, como tomografia e ressonância magnética, costumam ser pouco específicos, muitas vezes sem alterações características, o que dificulta a diferenciação precoce do quadro.
Embora todas as demências envolvam declínio cognitivo, os sinais iniciais variam conforme a causa, o que pode levar a diagnósticos equivocados.
“A demência vascular, por exemplo, pode ‘imitar’ vários outros tipos. Dependendo da área do cérebro afetada por lesões vasculares, o paciente pode apresentar sintomas motores, comportamentais, alterações de linguagem ou até alucinações”, diz o médico.
No Brasil, a demência vascular também está entre as principais causas de demência, reflexo do controle ainda insuficiente de fatores de risco como hipertensão, diabetes e colesterol elevado.
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Identificar corretamente o tipo de demência é essencial, porque os tratamentos, respostas e prognósticos são diferentes. “Hoje, com medicamentos específicos e de alto custo para a doença de Alzheimer, errar no diagnóstico significa não oferecer benefício e ainda expor o paciente a riscos desnecessários”, enfatiza o especialista.
Além do tratamento medicamentoso, o cuidado deve incluir abordagens não medicamentosas, como atividade física, estimulação cognitiva, terapia ocupacional, acompanhamento nutricional, fisioterapia e fonoaudiologia.
“São condições que exigem uma abordagem interdisciplinar, com profissionais atuando de forma integrada para preservar a autonomia e a qualidade de vida pelo maior tempo possível”, conclui ele.
Diante de qualquer mudança cognitiva, comportamental ou funcional persistente, a avaliação médica especializada é fundamental para a identificação precoce e a definição do tratamento mais adequado.