Sob o argumento de não elevar o “Custo Brasil”, lideranças partidárias e setor empresarial desenham acordo que pode esvaziar a proposta original de redução de jornada. Boulos diz que oposição à medida está restrita à extrema direita.
Fonte: Revista Fórum
Em um movimento para blindar parlamentares do desgaste popular em ano eleitoral, o Centrão sinalizou nesta segunda-feira (9) que não irá se opor ao fim da escala 6×1. No entanto, a articulação liderada nos bastidores condiciona a aprovação a uma “pegadinha” legislativa: a manutenção da carga horária constitucional em 44 horas semanais. A manobra, se concretizada, transformaria a conquista histórica do fim do trabalho aos sábados em uma compressão de jornada, exigindo quase 9 horas diárias de trabalho nos dias úteis.
A informação, confirmada por lideranças do bloco à coluna de Thais Bilenky (UOL), expõe o racha entre a proposta defendida pelo Governo Lula e movimentos sociais, que pleiteiam a redução para 40h ou 36h semanais, e o lobby empresarial, que busca mitigar os impactos na folha de pagamento.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), afirmou que deve “acelerar o debate”, utilizando termos como “equilíbrio” e “responsabilidade”. Na gramática do Congresso, essa terminologia costuma preceder textos que atendem a demandas patronais.
A estratégia do bloco conservador é pragmática: reconhecem que votar contra o fim da 6×1 tornou-se inviável politicamente. O tema, que ganhou tração massiva nas redes sociais e nas ruas através do movimento VAT (Vida Além do Trabalho), é considerado “maduro” e “encaminhado”. O objetivo agora é controlar como o texto será aprovado.
O deputado Claudio Cajado (PP-BA), uma das vozes influentes do Progressistas, sintetizou a estratégia do grupo:
“Vai votar, é consensual acabar com a 6 x 1. Agora vamos discutir se serão 44 horas em cinco dias ou 40 horas. Está dividido. O custo-Brasil não pode aumentar.”
A proposta do Centrão de uma escala 5×2 mantendo as 44 horas semanais gera um impasse prático na CLT. Para cumprir a carga horária sem trabalhar aos sábados, o trabalhador teria que estender sua jornada diária em 48 minutos (totalizando 8h48 diárias), ou o banco de horas se tornaria a regra, e não a exceção.
Além da manutenção das 44 horas, outra frente de atuação dos setores empresariais é a fragmentação da negociação. Há uma articulação para que a nova jornada não seja uma regra geral imediata, mas sim definida por categoria via convenção coletiva.
Essa tática enfraquece sindicatos de setores com menor poder de barganha, como comércio e serviços — justamente onde a escala 6×1 é mais predatória —, permitindo que a “exceção” se torne regra em contratos de trabalho específicos.
Do lado do Planalto, a redução da jornada para 40 horas é tratada como prioridade. O Ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, rebateu os argumentos econômicos do setor patronal, comparando-os aos discursos históricos contra avanços trabalhistas.
“Já os setores empresariais contra os direitos dos trabalhadores repetem os mesmos argumentos surrados desde a abolição da escravidão, passando pela criação da CLT, 13º salário e férias”, declarou Boulos.
O ministro também delimitou o campo de batalha para outubro, alertando que a oposição à redução real da jornada ficará restrita à extrema direita e cobrará seu preço nas urnas: “Quem se opuser à redução da escala terá que prestar contas nas urnas em outubro”.
A disputa agora se dará na Comissão Especial e no Plenário, onde o governo terá que mobilizar sua base para evitar que o fim da escala 6×1 seja aprovado apenas “no papel”, mantendo a carga exaustiva que adoece o trabalhador brasileiro.