Aposentadorias que não acompanham custo de vida reduzem poder de compra de idosos

Sindnapi defende a criação de um índice inflacionário para idosos e um sistema de reajuste dos benefícios do INSS que assegure a reposição de perdas

Fonte: Revista Fórum

O reajuste constante de itens centrais do orçamento de idosos, como alimentos e medicamentos, acaba corroendo o poder de compra dos aposentados brasileiros. Os benefícios previdenciários seguem regras de aumento definidas por lei. Porém, a inflação que atinge o cotidiano dos idosos cresce em ritmo diferente, na prática, mais rápido. O saldo dessa equação é uma renda que parece encolher ano após ano.

O Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi) acompanha de perto os desafios enfrentados por quem depende do benefício do INSS para manter qualidade de vida e segurança financeira.

A entidade, inclusive, defende a criação de um índice inflacionário para a população acima de 60 anos e um sistema de reajuste dos benefícios do INSS que assegure a reposição de perdas.

Carlos Cavalcante de Lacerda, diretor de Assuntos Previdenciários do Sindnapi, destacou que dados do IBGE e do Dieese confirmam que pessoas idosas gastam proporcionalmente mais com saúde, alimentação e energia do que a média da população.

“Medicamentos de uso contínuo, consultas médicas e planos de saúde ocupam fatia crescente do orçamento após a aposentadoria, e ao mesmo tempo, alimentos básicos tiveram altas acumuladas relevantes nos últimos anos, superando o índice geral em vários períodos”, lembrou.

No Brasil, aposentadorias equivalentes ao salário mínimo recebem reajuste anual atrelado ao próprio mínimo nacional. Já benefícios acima do piso são corrigidos pelo índice oficial de inflação.

Lacerda afirmou que esse mecanismo cria duas dinâmicas. “Quem ganha o mínimo acompanha parcialmente o aumento do custo de vida geral; quem recebe acima do mínimo tende a perder poder de compra ao longo do tempo, pois o reajuste não considera a inflação específica do envelhecimento”, disse.

“O idoso consome uma cesta muito diferente da média da população. Saúde e alimentação pesam mais e são justamente itens que costumam subir acima do índice geral. Por isso, a sensação de empobrecimento, sobretudo entre beneficiários com renda pouco acima do mínimo, que não se enquadram em políticas sociais, mas enfrentam despesas elevadas”, prosseguiu o diretor do Sindnapi.

Para muitos aposentados, a renda previdenciária se tornou insuficiente para cobrir as despesas básicas, ainda conforme Lacerda. “Isso, muitas vezes, leva o aposentado a reduzir doses de medicamentos, cancelar plano de saúde e cortar alimentos considerados mais caros. Isso afeta não apenas a saúde, mas o bem estar dos aposentados”.

Simulações, com base em cestas de consumo da terceira idade, indicam que um benefício médio, que comprava determinada quantidade de medicamentos e alimentos há uma década, hoje compra menos.

“O Sindnapi tem lutado desde sua criação, no ano 2000, para que todos os benefícios do INSS tenham reajuste anual acima da inflação oficial, pois entende que há diferenças gritantes. A inflação para a população acima dos 60 anos é muito diferente e é preciso que se olhe com mais cuidado essa situação”, apontou o diretor do Sindnapi.

Entrevistas com aposentados indicam que gastos essenciais aumentaram mais que a renda. “O benefício sobe todo ano, mas o mercado sobe mais”, relatou uma aposentada de 68 anos. Outro ponto recorrente é o aumento de despesas médicas com o avanço da idade, justamente quando a renda já está fixa.

Quanto o benefício deveria valer hoje

Especialistas defendem que a análise do poder de compra do aposentado deveria considerar uma inflação específica da terceira idade, baseada em sua cesta de consumo real. Simulações mostram que, se os benefícios fossem corrigidos por esse índice, o valor atual seria superior ao pago hoje em muitos casos.

A discussão ganha relevância em um país que envelhece rapidamente. Com mais brasileiros chegando à aposentadoria, a adequação do benefício ao custo de vida do idoso passa a ser não apenas questão individual, mas social e econômica. Afinal, para milhões de famílias, a aposentadoria ainda é a principal e, às vezes única, fonte de renda.