Quanto maior a taxa Selic, maior é o efeito “boca de jacaré” sobre as economias das famílias ao longo do tempo
Fonte: Jornal GGN
Esta é a décima quarta reportagem da série Por Dentro do Sistema Financeiro, uma parceria entre o Jornal GGN e a Contraf-CUT que busca analisar por dentro do Sistema Financeiro Nacional
Os dados e tabelas mostram que o Brasil passa por um momento econômico bastante positivo, com queda do desemprego e aumento da renda média. Entretanto, para muitas famílias, a sensação é de que a conta simplesmente não fecha.
Como explica a economista Juliane Furno, o cenário atual é marcado por um grande “descompasso”: existe uma falha grave na tradução dos números do PIB para o bem-estar social.
A percepção de piora econômica, mesmo com a inflação sob controle, é o reflexo de uma renda que cresce no papel, mas é drenada antes mesmo de chegar à despesa.
Esqueça os manuais que mandam apenas “cortar o cafezinho”. Em 2026, a educação financeira tornou-se uma ferramenta bruta de sobrevivência. Segundo Victor Pagani, diretor adjunto do DIEESE, as famílias brasileiras operam hoje sob uma “estratégia de guerra”.
“Para quem ganha perto de um salário mínimo, cortar gastos significa cortar serviços essenciais como água/luz/gás ou cortar a própria alimentação. Então, não tem de onde cortar”, pontua Pagani. “Somado a isso, tivemos o advento das bets, totalmente desreguladas, e que provavelmente contribuíram para o aumento dessa situação de endividamento das famílias, sobretudo das mais pobres”.
Dentro desse contexto, a educação financeira não está nos conceitos transmitidos por muitos economistas e especialistas nas redes sociais, e sim na decisão entre os gastos essenciais e urgentes.
É a adoção de táticas como frequentar a “xepa” da feira, ou substituir a compra de alimentos frescos por ultraprocessados, mais baratos e menos nutritivos, ou gerenciar o atraso de contas de consumo — como água e luz — em um rodízio perigoso para evitar o corte de serviços básicos enquanto tentam escapar da “bola de neve” dos juros.
A fotografia atual das finanças domésticas mostra o tamanho do desafio estrutural que enfrentamos:
(Fonte: CNC/Bacen, Fev/2026)
Recentemente, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano. Embora o movimento pareça positivo, ele carrega um peso histórico: foi o primeiro corte desde maio de 2024. O Brasil ainda ostenta um dos maiores juros reais do mundo, funcionando como um freio de mão puxado para quem precisa de crédito.
A Selic alta impacta diretamente o seu dia a dia:
Um dado técnico explica visualmente por que o aumento do salário não é sentido de fato no bolso da população: a “Boca de Jacaré”. Desde a pré-pandemia, o rendimento médio real do brasileiro cresceu 12%.
No entanto, após o pagamento de dívidas com o Sistema Financeiro Nacional (SFN), esse ganho real despenca para apenas 3%. Ou seja: 9% de todo o ganho real de rendimento da população foi “engolido” pelos bancos e financeiras.
Na prática, o esforço do trabalhador para produzir e ganhar mais não resulta em consumo ou poupança, mas serve para alimentar o rentismo. O SFN “capturou” a melhora da renda, impedindo que o crescimento econômico circule no comércio do bairro.
O cartão de crédito continua sendo o principal ralo financeiro, apontado por 85% das famílias endividadas como o grande problema. O cenário é alarmante: os juros do rotativo saltaram de 330% ao ano em 2021 para 425% ao ano em 2026.
“A gente fala muito da taxa Selic, mas quando a gente vai ver o real patamar dos juros elevados, a alta da Selic resulta em alta dos juros para pessoa física, o tomador do crédito final”, lembra Pagani, do Dieese.
“Se pegarmos a taxa de juros rotativa do cartão de crédito, em janeiro/26 segundo BC, ela estava em média 425% ao ano – e com a alta da Selic ela saltou de 330% em janeiro/21 para 425% em janeiro/26”, afirma o economista. “Mas também tem cheque especial, crédito consignado, consignado, crédito para compra de veículos, motocicletas, todas as taxas de juros aumentam quando BC aumenta a taxa Selic”.
É importante destacar que, embora exista um Teto do Rotativo de 100% implementado pelo governo, ele só vale para dívidas contraídas a partir de janeiro de 2024.
Isso explica por que a média de juros ainda é tão alta, já que o estoque de dívidas antigas continua sob as regras abusivas de outrora, asfixiando milhões de brasileiros.
Para enfrentar essa crise, o governo federal tem lançado mão de medidas para desafogar o orçamento das famílias:
A educação financeira individual é um passo importante, mas ela não faz milagres diante de um sistema desenhado para concentrar renda.
A política de valorização do salário mínimo está no caminho correto, mas seu efeito é neutralizado pela “boca de jacaré” do sistema financeiro. É urgente que o Banco Central colabore com quedas consistentes e profundas nos juros e que haja uma regulamentação mais rígida contra os juros abusivos.
Sem essas mudanças estruturais, o suor do trabalhador brasileiro continuará servindo apenas para alimentar o lucro recorde dos bancos, enquanto o crescimento da economia segue sem chegar ao prato de quem mais precisa.
Para as famílias que estão no limite, a gestão financeira deve ser tática e analítica: