Herança da pandemia: desinformação em saúde segue impactando a vida das pessoas

A desinformação continua sendo uma grande ameaça à saúde pública. Especialistas discutiram os impactos e possíveis caminhos para combatê-la durante o Pulso

Fonte: Portal Drauzio Varella

O Pulso, primeiro evento de saúde do Portal Drauzio, produzido em parceria com UOL, debateu diversos temas que permeiam o dia a dia dos brasileiros. Um dos principais destaques foi a comunicação na área de saúde e ciência, e como a desinformação que ganhou espaço na pandemia de covid-19 reverbera até hoje.  

Em um mundo onde 95% das pessoas dizem que pelo menos um evento importante nos últimos cinco anos alterou a sua confiança em instituições e outras pessoas, o Brasil não foge à regra. Hoje, 87% dos brasileiros creem que o país está dividido em questões de saúde, e muitos deles imputam isso à polarização. Nesse cenário, crenças amplamente desmistificadas pela ciência, como “o uso de paracetamol na gravidez causa autismo” e “proteína animal é mais saudável do que a vegetal” ganham força. Os dados são do Edelman Trust Barometer 2026, relatório que avalia confiança e saúde.

As percepções da pandemia

O Pulso recebeu nomes com ampla atuação durante o período pandêmico, como Luana Araujo, infectologista e epidemiologista, e Atila Iamarino, biólogo e pesquisador, que falaram sobre os desafios e aprendizados da crise sanitária. 

Para Araujo, o que mais chamou atenção na época foi o sistema de desinformação organizado e financiado sendo tomado como algo natural — e a população sofre com essa situação até hoje. 

Esses desafios não foram embora, pelo contrário. Eles se profissionalizaram ainda mais. Eles hoje agem em diversas frentes, para além da covid, obviamente. E exige da gente que a gente esteja preparado para isso.”

Iamarino contou que sua maior surpresa foi a resiliência das infraestruturas. “Primeiro, a resiliência da infraestrutura de desinformação: convencer um quarto dos brasileiros ou mais a tomar cloroquina é uma infraestrutura muito bem construída e fomentada. Depois, a infraestrutura em saúde pública: convencer essas mesmas pessoas — mais de 80% delas — a tomarem a vacina na velocidade que a gente tomou”, afirmou. 

O desafio de levar informação através das redes sociais

O pesquisador acredita que construir uma relação de longo prazo com o público é possível, mas depende da rede social, do momento atual e de vários outros fatores. Um dos desafios é explicar que algumas perguntas ainda não têm respostas.

“Da maneira como as redes sociais estão estruturadas e para onde elas estão indo agora, é na direção oposta, a direção da resposta rápida e pronto — que agora está indo para a IA [inteligência artificial]. A IA é treinada para dar respostas confortantes para as pessoas e isso depende de como elas perguntam. Então, se elas procuram uma resposta curta e rápida, elas vão receber isso”, disse Iamarino. 

Segundo o Trust Barometer 2026, quem mais acredita em desinformação é justamente quem mais usa a IA para buscar informações de saúde. O problema é que quem propaga desinformação sempre oferece respostas — mesmo que elas não sejam verdadeiras. “Comunicar incertezas é difícil”, acrescentou Mariana Varella, editora-chefe do Portal Drauzio e apresentadora do Pulso. 

Enquanto os comunicadores têm diversas preocupações — desde como se portar em um vídeo até fazer com que as pessoas se sintam próximas do que está sendo dito —, quem desinforma só se preocupa em manipular, opinou Luana Araujo. 

Por isso, para ela, é importante que quem faz esse trabalho tenha uma voz uníssona. Mesmo com abordagens diferentes, a mensagem final precisa estar alinhada, para mostrar às pessoas que existe outro caminho possível.

O papel do estado

Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, que também participou do evento, destacou que no período da pandemia as políticas públicas do estado eram desacreditadas por representantes do próprio estado.  

“A constituição garante o direito à saúde a todos, é dever do estado fazer isso. Mas a gente precisa dar também confiança à população. O poder público não pode hesitar. Quando a gente elabora uma política pública, a gente tem que fazer isso passando a verdade”, disse. 

Um exemplo recente foi a suspensão da vacina contra a dengue do Instituto Butantan. “Tivemos que revogar uma política pública e a gente sabia que isso ia impactar o PNI. Mas mesmo quando a gente tem que tomar medidas em situações de crise, se a gente vem com a verdade e a preocupação com as pessoas, a gente costuma ser bem recebido”, contou. 

Em relação às ações do Ministério da Saúde para recuperar a confiança da população, ele conta que a Pasta está mais presente nas redes sociais, com o próprio ministro, Alexandre Padilha, sendo mais ativo, e o personagem Zé Gotinha para ajudar a promover a saúde. 

“Só que a gente precisa de apoio. Estabelecer parcerias com comunicadores e com a sociedade civil organizada também é estratégico para ajudar nesse processo de comunicação e fortalecer a confiança nas ações que o Ministério promove”, disse Gatti. 

“Desinformação deveria ser criminalizada”: onde estamos agora?

Os especialistas destacaram a importância de criminalizar as redes de desinformação com fins de benefícios financeiros e políticos, que só se fortaleceram desde a pandemia.

“Mesmo que o Ministério da Saúde esteja fazendo um trabalho bom, adequado, nada adianta se a desinformação dolosa com fins de benefício financeiro não for considerada crime contra a saúde pública. Quanto dinheiro a gente investe para levantar um parque de vacinação e toda uma estrutura para a pessoa não dar um passo e entrar no posto porque alguém — uma organização criminosa, financiada — disse para ela não fazer isso?”, questionou Araujo. 

A imprensa, em grande parte na contramão dessas organizações, ocupa a faixa de desconfiança para responder às necessidades e preocupações relacionadas à saúde, de acordo com os entrevistados do Trust Barometer. Em outra mesa, o pediatra infectologista Renato Kfouri afirmou que, entre outros motivos, isso se dá devido ao negacionismo ter permeado todas as discussões em saúde.

“A gente tem um desafio muito grande que é não olhar pra desinformação como algo descolado da sociedade. Há traços culturais que fazem com que as pessoas acreditem que o flúor na água pode ser algo nocivo para elas. Por isso, não é só desmentir a informação que vai resolver o problema”, disse Nina Santos, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital. Junto a Kfouri, ela esteve na mesa ao lado de Ana Carbonieri, representante da Edelman.

Como alternativa, os especialistas defendem que os jornalistas e criadores de conteúdo atuem não só como divulgadores da informação, mas como mediadores. O objetivo é ajudar as pessoas a navegarem na mídia e nas redes sociais em meio a tantas informações falsas.

“Vemos que, desde a pandemia, essa confiança ainda não foi recuperada, tanto na imprensa quanto nas autoridades de saúde. É um trabalho de formiguinha. Precisamos de apenas 10 segundos para perder a confiança das pessoas, mas reconstruí-la leva tempo, esforço e investimento. Estamos nesse processo agora”, concluiu Carbonieri.