Coreia do Sul: Metalúrgicos realizam greve geral contra precarização e avanço desordenado da IA

Fonte: CSP Conlutas

O Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos da Coreia (KMWU) deflagrou sua primeira greve geral no último dia 15. A categoria exige a garantia de empregos diante da transição industrial e a regulamentação das negociações coletivas por setor, supra-empresariais, e diretamente com as empresas contratantes principais.

Segundo o KMWU, a paralisação mobilizou 79 mil metalúrgicos, incluindo trabalhadores de gigantes como Hyundai Motor e GM Korea. Somando cerca de 6 mil profissionais que aderiram ao movimento durante assembleias e atividades de organização, o total de trabalhadores que interromperam as atividades chegou a 85 mil, com atos e manifestações espalhados por 11 regiões do país.

Pauta de reivindicações

A pauta nacional da categoria foca na estabilidade no emprego e no direito de negociar diretamente com as empresas que detêm o controle econômico da cadeia produtiva, as contratantes principais. Entre as demandas específicas do acordo coletivo, destacam-se a proteção ao emprego e aos direitos humanos frente à introdução da Inteligência Artificial (IA); o reajuste no salário-base de 149.600 won (cerca de R$ 513,00); piso salarial da categoria de 11.540 won por hora (aproximadamente R$ 39,50 por hora), o equivalente a 2.608.040 won mensais (cerca de R$ 8.945,00 por mês); ampliação da idade de aposentadoria e abertura de novos postos de trabalho.

Durante ato centralizado pela central sindical KCTU no cruzamento de Gwanghwamun, em Seul, o presidente do KMWU, Park Sang-man, denunciou que a classe trabalhadora vem sendo tratada como descartável em um processo de reestruturação moldado exclusivamente pelos interesses do capital.

“A transferência de linhas de produção para o exterior, a adoção da IA e o avanço da automação estão aprofundando a insegurança laboral. Enquanto as contratações estão congeladas, os trabalhadores são empurrados para a precarização, totalmente desprotegidos pela legislação trabalhista”, alertou o dirigente.

Para Park, o país não terá futuro se não contornar a crise de empregos e a polarização do mercado de trabalho. Ele defendeu que a organização sindical rompa as barreiras das fábricas isoladas em direção a contratos coletivos por ramo e que se assegure a negociação com o “empregador real”, ou seja a empresa principal. A revogação do sistema de representação exclusiva nas negociações e a garantia de assento para os trabalhadores nas decisões sobre políticas industriais completam as exigências.

Para a direção do sindicato, a greve é uma ação conjunta nacional e estratégica. O KMWU pontua que blindar a rede de seguridade social e responsabilizar juridicamente as empresas tomadoras de serviço são os nós centrais do debate trabalhista atual, especialmente no momento em que a reestruturação industrial e a expansão da inteligência artificial ocorrem simultaneamente.

Segundo o dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos Antonio Lisboa, a greve geral realizada pela KMWU, com a participação de dezenas de milhares de trabalhadores, é um exemplo de força e organização da classe trabalhadora. “Os trabalhadores da Coreia do Sul estão enfrentando problemas que são comuns aos trabalhadores de todo o mundo. A precariedização ao trabalho, a automação, a inteligência artificial, as emissões e as tentativas a grandes empresas em aumentar seu lucro à custa dos trabalhadores. Por isso, a luta da KMWU é também a nossa luta. É a luta dos trabalhadores da GM do Brasil, dos metalúrgicos, dos professores, dos bancários, dos petroleiros, de todos aqueles que enfrentam a exploração capitalista”, afirmou.

Solidariedade internacional

O movimento dos metalúrgicos coreanos ecoou globalmente, recebendo o apoio de diversas entidades sindicais que cobram garantias trabalhistas na transição tecnológica.

A IndustriALL Global Union, federação que representa mais de 50 milhões de trabalhadores do setor industrial em 107 países, endossou a greve. Para a IndustriALL, a estabilidade de terceirizados, os direitos humanos diante da IA e a corresponsabilidade das empresas principais são desafios globais da categoria, tornando a mobilização coreana uma referência internacional.

O apoio também veio do Brasil. A CSP-Conlutas destacou que, embora a Coreia do Sul tenha reformulado sua legislação sindical no ano passado para ampliar a responsabilidade das empresas contratantes, a aplicação prática dessas negociações ainda é travada pelas companhias. A central brasileira cobrou medidas efetivas das empresas e do governo sul-coreano para garantir direitos e empregos diante das novas tecnologias.

Em resposta ao apoio brasileiro, o KMWU agradeceu a manifestação: “Conforme observaram, embora as revisões da legislação trabalhista coreana possam ter ampliado a responsabilidade do contratante principal no papel, a negociação real ainda não acontece na prática. Sua perspicaz observação capta exatamente a lacuna que estamos lutando para preencher, e seu apoio integral nos dá enorme ânimo”, apontou o sindicato em nota.

Da Europa, o IG Metall (Alemanha) defendeu que a classe trabalhadora precisa ter poder de decisão sobre como a tecnologia transforma os postos de trabalho, cobrando diálogo imediato do governo e do patronato com o sindicato.

Nos Estados Unidos, o UAW (United Auto Workers) reforçou que o avanço da automação e da IA não pode atropelar os trabalhadores. O sindicato americano manifestou apoio integral às cláusulas de direitos humanos e segurança jurídica da pauta coreana, disparando: “Apenas a tecnologia decidida pelos trabalhadores é verdadeiramente uma nova tecnologia”.

No continente asiático, o Zenroren e o Jmitu, organizações do Japão, declararam forte apoio à campanha por direitos de negociação com as empresas principais, ressaltando que a defesa de uma vida digna exige a unidade da classe trabalhadora além das fronteiras nacionais.

Próximos passos

O KMWU reiterou que a onda de apoio internacional comprova que o debate sobre a transição industrial e a responsabilidade das empresas tomadoras de serviço é um desafio global. O sindicato alertou que, caso o governo e o setor patronal recusem a pauta de reivindicações, novas mobilizações serão convocadas, incluindo uma segunda greve geral já agendada para o dia 26 de agosto. Até o momento da deflagração do movimento, cerca de 101 mil membros do KMWU já haviam assegurado o direito legal de greve.