Embora o câncer costume ser associado à genética e aos hábitos de vida, parte dos casos começa com uma infecção viral que pode ser evitada com vacinação
Fonte: Portal Dr. Drauzio Varella
Quando se fala nas causas do câncer, é comum pensar primeiro em herança genética, cigarro, álcool ou alimentação. Parte dos tumores, porém, começa com uma infecção. Segundo levantamento da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em setembro deste ano na The Lancet Oncology, cerca de 2,3 milhões dos casos diagnosticados no mundo em 2024, um em cada oito, foram causados por vírus, bactérias ou parasitas.
Para dois desses vírus já existe vacina gratuita no Sistema Único de Saúde (SUS), a do HPV (papilomavírus humano), relacionado ao câncer do colo do útero e a tumores de ânus, vulva, vagina, pênis e orofaringe, a parte da garganta logo atrás da boca, e a da hepatite B, que reduz o risco de câncer de fígado.
A ligação entre a hepatite B e o câncer de fígado é conhecida há muitos anos, lembra Ivan França, infectologista do A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo (SP). Sobre o vírus, ele explica: “Ele pode ficar anos no organismo até provocar lesões pré-cancerígenas, como a cirrose hepática”. É desse dano prolongado que pode surgir o tumor, de prognóstico ruim, um processo que a vacina ajuda a evitar.
No caso do HPV, a lista é maior. O vírus “está ligado a pelo menos cinco, seis tipos de câncer”, afirma Silva. O mais conhecido é o de colo do útero, associado sobretudo aos tipos 16 e 18, dois dos quatro cobertos pela vacina do SUS.
Mas estar infectado com o vírus não significa necessariamente desenvolver um tumor. Quase todas as pessoas sexualmente ativas terão contato com o HPV em algum momento da vida, em geral sem sintomas, e em 90% delas o próprio organismo elimina o vírus em um ou dois anos, segundo a OMS. O risco está na minoria em que a infecção por tipos de alto risco persiste: com o tempo, ela altera as células do colo do útero e pode provocar lesões pré-cancerosas, capazes de evoluir para câncer em um processo que costuma levar de 15 a 20 anos. E o cigarro está entre os principais fatores que favorecem essa persistência.
Essa diferença entre uma infecção transitória e uma infecção que permanece ajuda a entender por que a vacinação precisa acontecer antes da exposição ao vírus. No caso da hepatite B, a lógica é a mesma, e a proteção pode começar já no nascimento.
Pelo Calendário Nacional de Vacinação, a primeira dose contra a hepatite B é aplicada de preferência nas primeiras 12 horas de vida, e o esquema segue com a vacina pentavalente aos 2, 4 e 6 meses. Quem não foi vacinado pode tomar as doses em qualquer idade, de graça, nos postos de saúde.
Começar cedo é importante porque a idade da infecção pesa. Segundo a OMS, menos de 5% das infecções adquiridas na vida adulta se tornam crônicas, contra cerca de 95% das que ocorrem na primeira infância. “A forma de transmissão também mostra por que a vacina é tão importante, pois o vírus passa pelo contato com sangue e por via sexual”, explica o infectologista.
Quem não sabe se foi vacinado ou não completou o esquema deve procurar uma unidade de saúde, orienta França. Segundo o Ministério da Saúde, não é preciso recomeçar e as doses que faltam são aplicadas a partir de onde o esquema parou.
No SUS, a vacina contra o HPV é aplicada em meninas e meninos de 9 a 14 anos e, desde 2024, em dose única. O objetivo é imunizar antes do primeiro contato com o vírus, que é altamente contagioso, explica França. “Então, uma relação desprotegida, mesmo na primeira relação, já pode ser contato com o HPV.”
A troca do esquema de duas doses pela dose única se apoiou em estudos que mostraram boa proteção com uma aplicação. “Existe um trabalho que foi feito na África que mostrou que uma dose dá uma cobertura excelente para evitar câncer”, conta o infectologista. A mudança também tem razões financeiras e permite vacinar mais crianças com o mesmo recurso. “Você tem uma boa cobertura quando você faz uma dose só, mas o ideal é que comece na data certa”, enfatiza.
Quem passou da faixa etária de rotina ainda pode se vacinar pelo SUS em algumas situações, detalhadas no quadro abaixo. Na rede privada, a vacina nonavalente protege contra cinco tipos a mais do vírus. Segundo a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), os tipos da vacina quadrivalente respondem por cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero, e os da nonavalente, por cerca de 90%.
Os resultados da vacinação já aparecem no país. Um estudo da Fiocruz Bahia publicado em 2025 na The Lancet Global Health, com dados do SUS de mulheres de 20 a 24 anos, mostrou queda de 58% nos casos de câncer de colo do útero e de 67% nas lesões pré-cancerosas mais graves nas gerações que puderam ser vacinadas.