Empresa teve 16 anos de lucro nos últimos 25 e sofre ofensiva política e empresarial por privatização
Fonte: Brasil de Fato
Após um histórico de 18 anos com resultados positivos desde o ano 2000, os Correios amargam prejuízos seguidos e estão no centro de uma nova ofensiva por sua privatização. O rombo recente, que ultrapassa R$ 2,6 bilhões em 2024, e pode chegar a R$ 7 bilhões até o fim de 2025, decorre não apenas da queda no volume de correspondências e do crescimento de concorrentes privados. Segundo dirigentes da empresa e trabalhadores, o prejuízo decorre de decisões políticas e normativas que asfixiaram a estatal.
A reportagem ouviu carteiros e lideranças sindicais com décadas de trabalho na empresa. Suzy Cristiny, Wilton Domingos e Emerson Marinho narram em detalhes as transformações vividas nas últimas décadas e denunciam a combinação de sucateamento deliberado, concorrência desregulada e um projeto de desmonte estatal em curso desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, agravado nos anos Bolsonaro.
Em paralelo, dados e relatos mostram como os Correios seguem presentes em 100% dos municípios brasileiros, chegando a comunidades onde nenhuma empresa privada atua. Em muitos municípios, a empresa pública é a única representação concreta do Estado.
Quando começou a trabalhar como carteiro, Wilton domingos percorreu estradas de terra no interior do Mato Grosso do Sul para entregar correspondências em comunidades onde não havia nenhuma outra presença pública.
“Naquela época, os Correios eram o que ligava muita gente ao resto do país”, lembra ele, que hoje é dirigente do sindicato dos trabalhadores da estatal no estado. “A gente era chamado de ‘carteiro do fim do mundo’, porque só nós íamos até lá.”
Domingos é uma das mais de 80 mil pessoas que compõem o quadro permanente dos Correios, empresa pública que atua em todos os 5.570 municípios brasileiros. Ele é também um dos milhares de trabalhadores da chamada “ponta”, carteiros e carteiras, motoristas e atendentes que acompanham, de dentro da estatal, a deterioração de uma estrutura estratégica.
“Os serviços privados só funcionam onde dá lucro. Se a gente sair, muita gente fica sem nada”, resume.

De bicicleta, a pé, de barco ou por avião. É assim que Suzy Cristiny e seus colegas de Correios no Acre entregam cartas pela Amazônia. Carteira motorizada em Rio Branco (AC) por quase duas décadas, ela é atualmente presidenta do sindicato local e dirigente da federação nacional da categoria. “O Acre tem cidades isoladas, onde só se chega de barco ou avião. Os Correios estão lá. Isso não é mercado, é serviço público.”
Filha de uma carteira, Suzy foi criada dentro da estatal e testemunhou o processo de sucateamento por dentro. “A gente vê o desmonte de quem nunca pisou numa agência. A mídia bate, e a direita quer vender uma empresa que é nossa. Só nós levamos vacina, livro didático, urna eletrônica, medicamento e prova do Enem para o Brasil inteiro.”

O Brasil de Fato analisou o balanço financeiro da empresa entre 2000 e 2025 e constatou que os Correios tiveram lucro em 18 dos últimos 27 anos. Corrigidos pela inflação (IGP-M) e somados, os resultados anuais da empresa renderam aos cofres públicos cerca de R$ 13,8 bilhões. Ou seja, mesmo com os resultados negativos acumulados nos anos recentes, a União, única acionista da empresa, tem um importante histórico de retiradas de dividendos da empresa.
Mesmo diante de mudanças profundas no perfil do serviço postal, com a queda do serviço de cartas e o crescimento do e-commerce, a estatal, que sustenta sozinha seus custos operacionais, gerou lucros à União e manteve sua presença nacional.
O novo ciclo de perdas, iniciado em 2015 e aprofundado entre 2023 e 2025, tem múltiplas causas: recuo das receitas, aumento de precatórios, passivos judiciais, perda de exclusividade e mudanças recentes na regulamentação aduaneira.
No entanto, como destaca Suzy Cristiny, que trabalha como carteira há 26 anos no Acre, “o governo cobra da gente lucro, mas esquece que quem banca a presença dos Correios em todos os municípios é a própria estatal, sem nenhum centavo de repasse federal”.
Suzy lembra que dos mais de 5 mil municípios atendidos, “só 500 agências são lucrativas”. As outras 4.500 dependem do chamado subsídio cruzado: o que se arrecada nos centros urbanos financia o serviço nas regiões periféricas, rurais e isoladas.
“Isso é o que torna o Correios estatal: a obrigação de chegar a todo mundo. Nenhuma empresa privada faz isso”, afirma.
De acordo com a empresa, 89% das agências são deficitárias e operam “exclusivamente para cumprir os critérios de universalização”. Os critérios de universalização são as regras impostas por lei federal que garantem que o serviço postal chegue a todas as pessoas, em todo o território, com continuidade, qualidade mínima e tarifas módicas.
Na prática, incluem metas de capilaridade (agências e rotas em todos os municípios, inclusive áreas remotas), regularidade e frequência de coleta e entrega, prazos padrão, acessibilidade (horários, atendimento inclusivo), índices de qualidade (perda/extravio, reclamações, rastreabilidade) e estrutura tarifária que permita atender regiões deficitárias por meio de subsídio cruzado, sem “escolher só onde dá lucro”.

Wilton Domingos, carteiro desde 1991 no Mato Grosso do Sul, viu o serviço postal mudar radicalmente. “Quando comecei, a gente tinha estrutura, frota própria, apoio técnico. Hoje muita coisa foi terceirizada. A entrega entre cidades, por exemplo, era feita por motoristas dos Correios. Agora é empresa contratada”, conta.
Suzy Cristiny completa: “A gente já viu carteiros terceirizados contratados por três meses. Essa pessoa não tem vínculo, não tem motivação, não tem condições. É o desmonte da confiança no serviço público”.
Emerson Marinho, que trabalhou como carteiro na periferia do Rio de Janiero, relata que os Correios concorrem hoje com um tipo ainda pior de precarização. “Muitas transportadoras privadas se valem de trabalhadores uberizados, sem vínculo, sem direito. E só os Correios entram em comunidades como a minha. Transportadora não entra”, diz. Para ele, a saída dos Correios do mercado significaria “uma precarização ainda maior do trabalho de entrega no país”.
No mercado de entregas, os Correios disputam espaço com gigantes do setor logístico e plataformas de comércio eletrônico que avançam com modelos baseados na informalidade. A explosão do e-commerce nos últimos anos consolidou empresas que se apoiam em trabalhadores uberizados: entregadores que arcam com seus próprios custos, não têm jornada definida e não contam com garantias mínimas.
Essa concorrência, sem um marco regulatório no Brasil, cria um ambiente onde o preço baixo se sustenta à custa da precarização. “Eles só recebem se entregarem, mesmo que isso signifique trabalhar domingos e feriados, com carro próprio, sem direitos”, aponta Suzy Cristiny, presidenta do sindicato dos trabalhadores dos Correios no Acre.
Nesse cenário, os Correios funcionam como um contraponto. Por ser uma empresa estatal, com trabalhadores concursados e cobertos por acordos coletivos, a empresa ainda garante condições dignas de trabalho em um setor marcado por rotatividade e desproteção.
“O Correio é a última trincheira dos direitos trabalhistas na entrega de encomendas”, resume Emerson Marinho.
Enquanto isso, no mundo dos negócios, gigantes do setor continuam anunciando investimentos vultuosos. De um lado, o Mercado Livre projeta R$ 34 bilhões de investimento no Brasil em 2025, recorde que inclui expansão logística e oito aviões dedicados por meio da Gollog. Só em 2025, a empresa afirma ter ampliado em 47% sua área logística e em 41% a capacidade dos centros de distribuição. Do outro, a Amazon declara R$ 13,6 bilhões investidos no país em 2024 e alcança 250 unidades logísticas, com 42 rotas aéreas e entrega no mesmo dia em 34 cidades.
A derrocada recente de parte das receitas dos Correios se explica também por mudanças recentes na legislação que regula o comércio eletrônico internacional. Até 2023, remessas internacionais de até US$ 50 recebidas via canal postal contavam com isenção e caíam majoritariamente nas mãos da estatal. Em 2024 e 2025, dois marcos normativos alteraram esse cenário:
Em apenas um ano, os Correios perderam espaço nas pequenas remessas internacionais. Suzy Cristiny estima que essas mudanças, somadas à “taxa das blusinhas”, impactaram as finanças da estatal em mais de R$ 5 bilhões em prejuízos em 2025.

O desmonte também se revela no histórico de pessoal. Em 2005, os Correios tinham 109 mil funcionários efetivos. Esse número subiu para 123 mil em 2015 e, desde então, entrou em queda livre. Em setembro de 2025, a empresa contava com apenas 84 mil empregados, uma redução de quase 40 mil pessoas em uma década.
Entre os motivos estão os sucessivos Planos de Demissão Voluntária (PDVs) — com picos de adesão em 2017, 2019 e 2020, após o golpe contra Dilma Rousseff (PT) e o durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) — e o congelamento de contratações. O último concurso com chamada efetiva foi em 2011. Em 2024, a empresa voltou a publicar editais para carteiros, atendentes e analistas, mas nenhum dos aprovados foi convocado até agora.
Mais do que entregar cartas e pacotes, os Correios exercem papel central na integração logística e social do país. Em mais de 5.500 municípios, a estatal é a única presença física do Estado. É pelas agências que chegam livros didáticos, provas do Enem, urnas eletrônicas, medicamentos, documentos, doações e benefícios sociais.
Em 2024, por exemplo, os Correios distribuíram 30 mil toneladas de donativos para vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul — a maior operação de ajuda humanitária já feita no país. Também entregaram mais de 200 milhões de livros didáticos em 140 mil escolas, organizaram a logística das provas do Enem em 1.700 cidades e foram responsáveis por devoluções de valores a 4 milhões de aposentados afetados por fraudes no INSS.
Entre os outros serviços públicos prestados pelos Correios, estão o acesso a:
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) retirou oficialmente os Correios do Programa Nacional de Desestatização (PND) assim que assumiu para seu terceiro governo, em 2023. Já havia feito isso em 2003, quando interrompeu os planos privatistas de FHC. Mas a privatização dos Correios segue no horizonte político de parte do Congresso, com promoção descarada da mídia comercial.
Em setembro de 2025, o deputado Marcos Pereira (Republicanos-SP), vice-presidente da Câmara, afirmou que “a privatização é o único caminho viável para modernizar os Correios e proteger os empregos”. No Senado, uma “mini-CPI” chegou a ser proposta para investigar a gestão da estatal.
Editorial da Folha de S.Paulo, publicado na mesma semana, defendeu a venda da empresa com cláusulas de universalização. Já a comentarista Thais Herédia, da CNN Brasil, apontou que o tema vem sendo “interditado” por razões políticas e deveria ser reaberto com foco em eficiência e risco fiscal.
Para os trabalhadores ouvidos pela reportagem, essa insistência revela o interesse de grandes grupos privados no mercado logístico nacional. “Os Correios são um obstáculo porque temos capilaridade e preço acessível. Eles querem destruir nossa reputação para tomar nosso espaço”, diz Suzy. “O projeto de privatização nunca morreu. Só está camuflado.”
Procurada pela reportagem, a direção dos Correios afirmou que a empresa está presente em todos os municípios do país e realiza, diariamente, o transporte de mais de 7 milhões de objetos postais, com cerca de 950 mil quilômetros rodados por dia.
A estatal informou que executa atualmente um plano de reestruturação operacional e financeira, dividido em três eixos: corte de despesas administrativas e operacionais; diversificação de receitas com foco na geração de caixa; e recuperação da liquidez. Segundo a empresa, o objetivo é retomar a competitividade e garantir estabilidade na relação com empregados, clientes e fornecedores.
Ainda segundo os Correios, o plano inclui o desenvolvimento de novas linhas de receita voltadas à modernização tecnológica, ampliação da presença digital e soluções para logística sustentável e e-commerce, com respeito à vocação pública da estatal. A empresa reafirma o compromisso com o serviço postal universal, que será mantido com readequações logísticas e tecnológicas, sem comprometer a presença nacional da rede.
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Editado por: Maria Teresa Cruz