Balanço econômico: ‘Ano termina muito melhor do que o mercado esperou’, diz economista

Professor analisa que insistência em meta de 3%, herdada de Campos Neto, gera ‘baixa credibilidade’ e juros altos

Fonte: Brasil de Fato

Segundo relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2025 foi revisada de 2,2% para 2,03%. Apesar de ser uma revisão para baixo, o número mantém o Brasil em um patamar de crescimento elevado.

Apesar do ajuste, a avaliação é positiva. “O ano termina muito melhor do que os agentes do mercado financeiro haviam esperado. Ou seja, comparado com dezembro do ano passado, quando a economia brasileira estava em um cenário meio que apocalíptico”, avalia o professor do departamento de economia da UnB, José Luis Oreiro, ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

O principal motivo do ajuste foi uma correção feita pelo IBGE, que apontou um resultado de 0,2% melhor no primeiro trimestre de 2024 do que se imaginava anteriormente.

Relembrando o cenário de final de 2024, o professor acrescenta: “Em termos de inflação, já havia forte movimento especulativo no final do ano de 2024, apontando para, inclusive, índices de inflação acima de 7% em 2025. Se falava de um crescimento muito abaixo de 2%, tinha até gente prevendo recessão, mas nada disso aconteceu”.

De acordo com o professor, a inflação do ano de 2025, ao que tudo indica, vai ficar dentro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional, que é abaixo de 4,5%. “Então, a primeira boa notícia do ano 2025, é que a inflação, ela seguiu uma trajetória de queda e, mais importante, puxada pela deflação de alimentos”, explica.

Já um segundo ponto positivo é de que a economia brasileira vai fechar o ano de 2025 com um crescimento acima de 1%. Quer dizer, embora de um crescimento inferior ao de 2023 e 2024, que foi de 3,4%, “estamos agora no terceiro ano consecutivo de um crescimento significativo”.

Apesar dessa melhora imediata, a perspectiva para 2026 segue mais cautelosa, com a estimativa de avanço mantida em 1,6%. Isso porque a taxa básica de juros permanece alta, em 15%, o que é hoje, segundo o Ipea, o maior entrave para o crescimento do país.

“O histórico do regime de metas de inflação no Brasil, olhando para os governos desde o segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, o Lula 1 e 2, Dilma 1 e 2, Temer, Bolsonaro e agora Lula 3, mostra por si mesmo de forma bastante eloquente que não é possível o Brasil ter uma inflação sustentável de longo prazo em torno de 3%”, destaca.

O docente analisa que colocar essa meta é simplesmente irrealizável. Na verdade, um Banco Central sistematicamente incapaz de cumprir a meta definida pelo Conselho Monetário Nacional – que, fique claro, não é o BC quem a define – gera o efeito contrário: baixa reputação, baixa credibilidade e, portanto, juros mais altos do que os que vigorariam com uma meta mais realista.

A alta taxa de juros é mantida pelo Banco Central sob o argumento de controle da inflação. O relatório apresenta que a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA), deve fechar 2025 em 4,4% e cair para 4,2% em 2026.

Em relação à insistência de Gabriel Galípolo nos juros de 15%, apesar de ao longo do ano ter mostrado uma tendência de queda, Oreiro contextualiza que existem duas explicações. Relembrando, primeiro, que o Conselho Monetário Nacional, que é a instituição que define a meta de inflação, não é o Banco Central e que a meta de 3% foi definida na gestão anterior, de Roberto Campos Neto.

“Então, a redução da meta de inflação se deu já dentro do governo Lula e o Galípolo interpreta, com uma margem de subjetividade, o mandato do Banco Central como o de perseguir o centro da meta de inflação que é de 3%. Como a inflação, embora esteja dentro do intervalo de tolerância, mas ela ainda está muito acima do centro da meta, então na interpretação da atual diretoria do Central ainda é prematura uma redução da taxa de juros”, explica o primeiro ponto.

Já no segundo ponto, o professor comenta que Gabriel Galípolo também pode argumentar que houve uma mudança na sistemática do regime de metas de inflação no dia 1º de janeiro de 2025, para um regime de metas de inflação contínua. “Ou seja, até o dia 31 de dezembro de 2024, o Banco Central tinha que cumprir a meta de inflação do ano calendário. A partir do dia 1º de janeiro de 2025, o Banco Central é obrigado por lei a manter a inflação no acumulado em 12 meses dentro do intervalo de variação do regime de metas de inflação, ou seja, abaixo de 4,5%”, acrescenta.

Isso significa que, a partir de 2025, o BC tem a obrigação legal de manter a inflação acumulada em 12 meses sempre dentro da banda de tolerância (até 4,5%). Como de janeiro a outubro de 2025 a inflação ficou acima desse limite, o Banco Central, tecnicamente, estava em descumprimento da lei. “Então, só agora em novembro que a inflação voltou para dentro do intervalo de tolerância”, pontua.