Parceria realizada com hospitais filantrópicos e de referência gerou ainda economia de R$ 151 milhões
Fonte: Jornal GGN
A revisão detalhada dos procedimentos de internação em hospitais públicos tem gerado impactos expressivos tanto na segurança dos pacientes quanto nas contas do Sistema Único de Saúde (SUS). Em dois anos, um projeto coordenado pelo Ministério da Saúde conseguiu reduzir em 26% as infecções em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) de hospitais públicos, com uma economia estimada de R$ 151 milhões.
Os resultados são da terceira edição da iniciativa desenvolvida em parceria com hospitais privados filantrópicos que integram o Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde). Ao todo, 285 hospitais participam do projeto, que aposta em mudanças simples de processo e na capacitação das equipes, sem a necessidade de novos investimentos financeiros por parte das unidades envolvidas.
A experiência demonstra que é possível reduzir custos e melhorar a qualidade da assistência por meio do que especialistas chamam de “ciência da melhoria”, baseada na padronização de rotinas, no monitoramento de indicadores e na adesão rigorosa a protocolos já existentes. Apenas com a reorganização dos fluxos de trabalho e treinamento de profissionais, as unidades conseguiram diminuir significativamente a ocorrência de infecções hospitalares.
Batizado de Saúde em Nossas Mãos, o projeto é gerido por hospitais privados filantrópicos de referência — HCor, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Beneficência Portuguesa, Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Moinhos de Vento e Hospital Sírio-Libanês. Essas instituições são responsáveis por disseminar o conhecimento técnico às unidades públicas integradas ao SUS. Em contrapartida, recebem imunidade tributária para reinvestir nos programas do Proadi-SUS.
As equipes desses hospitais capacitam profissionais de todo o país para seguir, de forma criteriosa, o passo a passo da internação, com foco na prevenção das três principais infecções associadas à permanência em UTI: infecção primária da corrente sanguínea relacionada ao uso de cateter venoso central, pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV) e infecção do trato urinário ligada ao uso de cateter vesical.
De acordo com Cláudia Garcia, coordenadora-geral do projeto, as unidades participantes continuam seguindo o Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde, estabelecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “O diferencial está no cumprimento rigoroso de cada etapa do protocolo, adaptando as recomendações à realidade de cada hospital”, explica.
Entre as medidas adotadas está, por exemplo, a inclinação da cabeceira do leito entre 30° e 45° em pacientes sob ventilação mecânica, prática que reduz o risco de aspiração de secreções e, consequentemente, de pneumonia. Mesmo em hospitais com leitos mais antigos e limitações estruturais, as equipes têm buscado alternativas para aplicar a orientação.
Outra ação fundamental é a retirada precoce de dispositivos invasivos, como cateteres, sondas, drenos e ventiladores mecânicos, sempre que clinicamente possível. Quanto menor o tempo de uso, menor o risco de infecção associada ao cuidado.
Embora as medidas pareçam simples, o projeto leva em conta as desigualdades regionais e a escassez de recursos enfrentadas por muitos hospitais públicos. Em algumas unidades, a falta de insumos e de infraestrutura adequada ainda representa um obstáculo à assistência, como ocorreu recentemente em UTIs neonatais do Hospital da Mulher, em Fortaleza, que chegaram a ser fechadas por esse motivo.
Realizado em ciclos de três anos, o projeto está atualmente em sua terceira edição. A redução média de 26% nas infecções refere-se ao segundo ano do ciclo em andamento, que acompanha 3.542 leitos. A expectativa é alcançar uma queda de 50% até dezembro de 2026, quando a etapa atual será concluída.
Além da economia gerada, a redução das infecções impacta diretamente a rotatividade de leitos. “Diminuir o tempo de internação significa liberar mais vagas e ampliar o acesso da população aos serviços, o que é fundamental no SUS”, afirma Cristiane Reis, da coordenação-geral de projetos da Secretaria de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde.
Em algumas unidades, os resultados vão além dos indicadores. No Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, a diretora-geral Amanda Corrêa da Cruz destaca que a estratégia promoveu uma mudança cultural entre os profissionais. “À medida que um profissional incorpora a prática, ele passa adiante para os colegas. Isso acaba se consolidando como uma cultura institucional”, afirma.
Na média nacional, a maior redução foi registrada nas infecções do trato urinário, com queda de 52% nas UTIs pediátricas e de 37,5% nas UTIs adultas. Apesar das variações entre as unidades, todas as instituições participantes apresentaram algum nível de redução desde o início da iniciativa.