Evitar a exposição prolongada ao ruído é uma das principais medidas para evitar a perda auditiva. Quando ela se instala, é fundamental buscar o tratamento adequado
Fonte: Drauzio Varella
Segundo diretriz recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), 45% dos fatores de risco associados à demência são modificáveis e podem, portanto, ser prevenidos ou retardados. A perda auditiva é um deles. Embora nem sempre possa ser evitada, ela pode ser tratada, de forma a preservar a qualidade de vida do indivíduo. A OMS recomenda o uso de aparelhos auditivos para adultos com a condição.
A perda auditiva relacionada à idade, principalmente quando não é tratada por anos, está associada a maior risco de declínio cognitivo e demência, incluindo o Alzheimer.
“Os mecanismos não estão totalmente definidos, mas as hipóteses mais aceitas envolvem: sobrecarga cognitiva (o cérebro precisa fazer muito esforço para entender a fala), privação sensorial (menos estímulos sonoros para o cérebro) e isolamento social, todos fatores que podem acelerar o declínio cognitivo”, afirma Francis Gutierrez, membro da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) e professor do Instituto de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Universidade Estadual de Campinas (IOU/Unicamp).
Sem tratamento, o problema pode ainda levar à ansiedade, depressão e prejuízos profissionais, além de contribuir para quedas e para o declínio funcional, o que compromete a autonomia da pessoa idosa.
Outra queixa importante é o zumbido, um sintoma frequentemente decorrente da própria perda auditiva. “Ele não é considerado, isoladamente, um causador de demência, mas aparece no mesmo contexto de perda auditiva não tratada e comorbidades como ansiedade, insônia e depressão”, explica o médico.
O especialista diz que as causas da perda auditiva variam conforme a idade. Em crianças, as principais são infecções de ouvido, fatores genéticos e algumas infecções adquiridas na gestação. Em jovens e adultos, o grande vilão é o ruído, especialmente pela exposição excessiva a fones de ouvido em volume alto e ambientes de trabalho barulhentos.
“Nos idosos, o principal fator é o envelhecimento natural do sistema auditivo, agravado por doenças como diabetes e hipertensão, e por toda uma vida de exposição ao ruído”, relata. A perda auditiva pode surgir em qualquer idade, mas se torna mais frequente depois dos 60 anos.
Ao longo da vida, diversos cuidados contribuem para a prevenção da perda auditiva. O especialista elenca os principais:
De acordo com o otorrinolaringologista, a maioria das recomendações vale também para a prevenção do zumbido, porque uma das causas mais frequentes do problema é justamente a perda auditiva induzida por idade, ruído e fatores metabólicos. Além disso, somam-se medidas como higiene do sono, manejo do estresse, redução de cafeína e álcool em excesso e evitar silêncio absoluto prolongado (sons ambientais suaves podem diminuir a percepção do zumbido em indivíduos predispostos).
“Não conseguimos impedir todo tipo de perda auditiva, porque há fatores genéticos e doenças que fogem ao nosso controle; mas, ao longo da vida, proteger-se do ruído, cuidar da saúde do coração, evitar automedicação e fazer check-ups da audição reduzem o risco de perda auditiva e de muitos casos de zumbido”, destaca Gutierrez.
Em idosos com perda auditiva, é comum que os familiares observem o problema antes do próprio paciente. Para isso, é importante atentar aos seguintes sinais de alerta:
Ao abordar o assunto, o especialista recomenda evitar a culpabilização ou o confronto direto e usar linguagem inclusiva, com frases como “nós percebemos”, “estamos preocupados com a sua saúde”, em vez de “você não escuta nada”. Também é importante normalizar a condição, destacando que atualmente existem opções de tratamento mais discretas e eficazes do que no passado.
“[Outro ponto é] focar em qualidade de vida e preservação da memória: explicar que ouvir melhor ajuda a participar das conversas, diminui o cansaço mental e pode proteger a cognição”, diz o médico. “Propor inicialmente uma avaliação, não um aparelho: ‘vamos marcar uma consulta com o otorrino para conferir como está sua audição’, deixando a discussão sobre o aparelho para depois da avaliação”, completa.
O tratamento passa por causas reversíveis, quando presentes: cerúmen impactado, otites, alterações de pressão ou ventilação da orelha média, ajuste de medicamentos potencialmente ototóxicos, controle de fatores metabólicos e vasculares.
Em outros casos, recomendam-se os aparelhos auditivos ajustados ao perfil audiológico e às necessidades do idoso (mesmo pessoas com perdas leves podem se beneficiar do uso, destaca o médico), além de treinamento auditivo e estratégias de comunicação.
Em perdas severas ou profundas com pouco benefício de aparelhos, ele diz que é preciso considerar tecnologias como o implante coclear.
“Na maioria dos casos, não falamos em ‘curar’ a perda auditiva, e sim em dar ao cérebro o máximo de som útil possível, com conforto. Isso ajuda a diminuir o esforço para ouvir, reduzir o incômodo do zumbido e melhorar a qualidade de vida”, conclui Gutierrez.