Motta “enterra” PL da Misoginia em “acordo” às portas fechadas; bolsonaristas celebram

Presidente da Câmara fez acordo com líderes partidários e anunciou que projeto que criminaliza a misoginia, aprovado no Senado, só será pautado na Casa após as eleições

Fonte: Revista Fórum

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu nesta terça-feira (7) não colocar em votação, antes das eleições, o Projeto de Lei 896/2023 — o PL da Misoginia — após um acordo com líderes partidários fechado sem transparência, segundo denúncia da deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP). A decisão trava o avanço da proposta aprovada pelo Senado e foi celebrada por parlamentares bolsonaristas, que vinham atuando contra o texto.

O anúncio foi feito no Colégio de Líderes e à imprensa, sob a justificativa de que o tema seria “polêmico”. Nos bastidores, porém, a medida é atribuída a um entendimento político que sequer foi apresentado à bancada feminina da Casa.

Acordo “às portas fechadas” trava projeto

Sâmia Bomfim afirmou que o acordo que enterrou a votação foi costurado sem debate público e sem participação das deputadas.

“Segundo ele, já houve um acordo com alguns líderes partidários com a relatora do projeto — que nós nem sequer sabemos quem foi — porque não foi discutido com o conjunto da bancada feminina”, declarou.

A parlamentar questiona a legitimidade da decisão e aponta falta de transparência no processo.

“Aí eu pergunto: tema polêmico para quem? Quem são os líderes que estão contra responsabilizar o ódio contra as mulheres?”, disse.

Veja vídeo em que Sâmia Bonfim denuncia a manobra

Bolsonaristas comemoram e pressionam contra votação

A decisão de não pautar o projeto ocorre após pressão direta de parlamentares da extrema direita. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) já havia antecipado que o texto não avançaria neste ano.

Crítico da proposta, ele afirmou:

“Essa lei […] é um instrumento extremamente subjetivo para poder silenciar as outras pessoas.”

O parlamentar também ironizou possíveis interpretações da lei:

“Rebaixar mulheres ao termo ‘pessoas que gestam’ também seria considerado misoginia?”

O discurso bolsonarista sustenta que a proposta ameaça a liberdade de expressão — argumento rejeitado por defensoras do projeto.

O que está em jogo no PL da Misoginia

Aprovado pelo Senado em 24 de março, o PL 896/2023 inclui a misoginia entre os crimes previstos na Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989).

O texto prevê:

  • pena de dois a cinco anos de prisão e multa para práticas de preconceito contra mulheres;
  • aumento de pena para crimes cometidos no contexto de violência doméstica e familiar.

A proposta busca enfrentar o ódio contra mulheres como fator estrutural da violência, incluindo o feminicídio.

A autora do projeto, senadora Ana Paula Lobato, classificou a aprovação como uma resposta firme:

“Misoginia é violência e não pode mais ser normalizada.”

Base governista acusa sabotagem da extrema direita

Parlamentares governistas afirmam que o adiamento não é técnico, mas político — e atribuem diretamente ao bolsonarismo a articulação para barrar o projeto.

A deputada Maria do Rosário (PT-RS) declarou:

“É óbvio que eles querem impedir que a Câmara vote projetos que tornam a misoginia crime, porque eles são os criminosos.”

Ela também destacou a contradição de parlamentares conservadores que apoiaram o texto no Senado e depois recuaram.

Já a deputada Dandara (PT-MG) alertou para os riscos do adiamento:

“Não aceitaremos nenhum retrocesso. A misoginia no país tem que ser crime pela nossa vida e pela nossa dignidade.”

Projeto fica fora da pauta até as eleições

Com o acordo fechado entre a presidência da Câmara e líderes partidários — cujos detalhes não foram divulgados — o PL 896/2023 permanece fora da pauta, sem previsão de votação até depois das eleições.

Enquanto isso, deputadas prometem continuar pressionando para que o tema avance, mesmo diante da resistência.

“Líder partidário machista nenhum e presidente da Câmara nenhum vai nos impedir de seguir batalhando”, afirmou Sâmia.